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O lixo virou lucro

O tempo em que o gado era aproveitado apenas para produzir carne e leite e sobras como raspa de couro eram jogadas fora já passou. Em breve você poderá ter em sua casa tijolos, pisos, móveis, divisórias e até energia elétrica produzidos a partir de resíduos bovinos.

Uberaba/MG - O boi que virou tijolo, energia elétrica, gás, repelente de insetos, fortificante, divisórias, medicamentos, lubrificante aeronáutico, explosivos, filtro de combustível, chiclete, música, obra de arte, ... Nada menos que 49 segmentos industriais dependem das matérias-primas geradas a partir do abate bovino para colocar seus produtos no mercado. Como os pecuaristas gostam de dizer: “do boi se aproveita até o berro” (Veja quadro na página XX).

Em um país onde a população bovina é quase igual à de habitantes, o gado deixou de ser utilizado apenas para a produção de carne, leite, acessórios e roupas de couro. Do sangue, produz-se ração pet. Do pêlo, filtros de ar e combustível. O sebo entra na fabricação de tintas, pneus, lápis. Vários cosméticos e substâncias hormonais são feitos a partir de matéria-prima extraída de miúdos de boi. Já dos cascos e chifres é possível fabricar pó para extintor de incêndio. As tripas dão origem a cordas para raquetes e fios cirúrgicos. Até a bílis tem utilidade. Ela é usada em fábricas de bebidas, de produtos químicos e farmacêuticos.

Os 49 segmentos que dependem da matéria-prima gerada pela pecuária de corte têm abastecimento garantido por causa da grande quantidade de animais abatidos a cada ano. No folheto elaborado pelo gerente administrativo do SIC (Serviço de Informação da Carne), Leandro Bovo, ele afirma que, se o abate bovino no Brasil parar, haverá paralisação direta de milhares de indústrias. A previsão do Instituto FNP é de que nada menos do que 45,37 milhões de cabeças serão abatidas em 2005.

Encontrar estatísticas oficiais no Brasil sobre produção de subprodutos é difícil. Porém, se levarmos em conta que 56,1% do peso total do bovino pronto para o abate já no frigorífico é de carne in natura e industrializada, os outros 43,9% seriam de subprodutos, entre sangue, pelos, couro, mocotó, sebo, miúdos, casco, chifre, tripas, mucosas e glândulas. Todos esses subprodutos já são utilizados há algum tempo pela indústria.

Agora, muitos pesquisadores brasileiros, das mais diversas áreas, trabalham para transformar resíduos bovinos, considerados lixo —como esterco, urina e raspa de couro— em novos produtos, e o melhor, com o “selo” de ecologicamente corretos. Está chegando ao mercado o boi energia, tijolo, divisórias, repelente de insetos, fertilizante.

O BOI QUE VIROU BIOGÁS

Em algumas propriedades rurais e empresas do setor, a energia usada para colocar em funcionamento eletrodomésticos ou equipamentos e máquinas de produção vem do esterco. É a chamada energia limpa. E existe “matéria-prima” para isso. O Brasil tem 164,9 milhões de bovinos eliminando diariamente toneladas de excremento no meio ambiente. Desse total de cabeças, em torno de 45,3 milhões devem ser abatidas este ano. Para se ter uma idéia do potencial brasileiro para gerar energia a partir de dejetos, cerca de 18% do peso de um boi de 468 quilos, pronto para deixar a fazenda rumo ao frigorífico, corresponde a fezes e urina.

O excremento animal contém metano, principal componente do gás natural e do biogás (a fonte energética mais em voga no momento pelo fato de ajudar na preservação do meio ambiente). É que o metano tem um lado negativo quando vai direto para o ar, sem passar pelo processo de combustão. Ele é um dos gases causadores do efeito estufa, ou seja, sua presença na atmosfera afeta a temperatura e o clima da Terra. Isso acontece, por exemplo, quando o excremento de bovinos, suínos, caprinos, búfalos e aves fica ao ar livre sem qualquer tipo de tratamento.

De acordo com dados da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, o metano responde por 16% de todas as emissões de gases de efeito estufa produzidos pelas atividades humanas. Além disso, é 23 vezes mais eficiente que o dióxido de carbono para “aprisionar” o calor na atmosfera durante um período de mais de 100 anos e pode permanecer na atmosfera por cerca de 12 anos. RETIRAR ESSA FRASE EM VERMELHO E o Brasil está entre os países que mais emitem metano por meio da criação de animais.
A boa notícia é que, com tanta matéria-prima, produzir biogás no Brasil é tarefa fácil. E principalmente agora, pois essa fonte de energia está sendo considerada importante moeda de troca no mercado internacional. Os países industrializados que não reduzirem suas emissões de gases causadores do efeito estufa terão de investir nos países em desenvolvimento (como o Brasil, por exemplo) comprando créditos de carbono. A determinação é do Protocolo de Kyoto e já está em vigor.

De olho nesse novo mercado que se abre, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio firmou convênio com a Bolsa de Mercadorias e Futuro (BM&F) para criação do Mercado Brasileiro de Redução de Emissões. É aí que entra o produtor rural. O metro cúbico de biogás produzido na fazenda equivale a um crédito de carbono nesse novo mercado.

As negociações em torno dos créditos de carbono estão apenas começando, mas os investimentos em biogás pipocam por todo o mundo. Quarto maior rebanho bovino mundial, a nação do presidente George W. Bush está se mobilizando para fazer o “lixo” das fazendas virar dinheiro. No Texas, região de forte vocação pecuária, a companhia Panda Group vai investir US$ 120 milhões na construção de uma indústria de álcool. O diferencial do projeto está no tipo de combustível que será utilizado para colocar as caldeiras em funcionamento. No lugar do gás natural, a empresa vai usar biogás, produzido a partir de esterco bovino. A economia de energia está sendo estimada em mil barris de petróleo por dia.

Da terra do Tio Sam também vem a iniciativa de se criar o Mercado de Metano. O governo norte-americano pretende aplicar até US$ 53 milhões nos próximos cinco anos para facilitar o desenvolvimento e a implementação dos projetos de metano nos países em desenvolvimento e países com economias em transição. A estimativa é de que a Criação de Mercado de Metano consiga atingir, até o ano de 2015, reduções anuais de emissão de 15 bilhões de metros cúbicos de gás natural, cujo metano é o principal componente.

No Brasil, os investimentos também avançam. Já existem várias fábricas de biodigestor no mercado. Apesar de ter ganhado destaque na mídia atualmente por causa da venda de créditos de carbono, o biogás é produzido no País desde a década de 40, quando padres construíram biodigestores nas comunidades onde trabalhavam. Quatro décadas depois, o governo implantou alguns programas de incentivo à implantação do equipamento em fazendas. Na época, cerca de sete mil biodigestores foram instalados.

Problemas operacionais levaram muitos pecuaristas a abandonar, anos depois, a tecnologia. Ela só voltou a surgir no cenário nacional em 2001 por causa do Apagão, crise que causou racionamento de energia no Brasil por vários meses. Outro empurrão para a volta dos biodigestores, ocorrido no mesmo ano, foi o problema ambiental causado pela falta de tratamento dos dejetos de suínos.

Agora, as exigências do Protocolo de Kyoto acabaram impulsionando novamente os projetos na área de biogás. “A venda de créditos de carbono é um mercado que está se abrindo agora, mas com grande potencial para crescer. O criador consegue ter em no máximo dois anos retorno do investimento feito”, explica Jorge de Lucas Júnior, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, campus de Jaboticabal. A universidade desenvolve estudos com biogás desde 1975.

Uma vaca confinada consegue produzir, em um dia, quantidade de esterco para gerar um metro cúbico de biogás. Encanado, ele sai diretamente do biodigestor para alimentar motores, bombas de água para o sistema de irrigação ou outros equipamentos e máquinas que dependem de energia elétrica para funcionar. Além disso, pode ser usado em fogões, lampiões ou para aquecer caldeiras... Na China, existem pequenas cidades que funcionam utilizando o biogás como principal fonte de energia. Por lá, até mesmo dejetos humanos são matéria-prima para gerar energia através dos biodigestores.

O biogás a partir do esterco bovino demora em torno de 15 a 20 dias para ser produzido quando o equipamento é abastecido pela primeira vez. Depois desse período, o gás pode ser retirado diariamente. As fezes devem ser diluídas em água antes de serem colocadas no biodigestor, feito geralmente de lona flexível de PVC. “Dentro do equipamento também acontece a produção de biofertilizante, que pode ser utilizado na fertilização do solo em substituição ao adubo químico. Só não é recomendável usá-lo nas hortaliças de folhas”, destaca Renata Serafim, professora da Fazu (Faculdades Associadas de Uberaba).

Outros resíduos bovinos também são aproveitados como fertilizantes de plantas. É o caso da urina. Segundo a Emater do Rio Grande do Sul, o líquido contém uma série de substâncias importantes na recuperação do solo, como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, ferro. Além disso, a urina tem ácido indolacético, hormônio natural que auxilia no crescimento da planta. O cheiro forte do líquido ainda espanta os insetos.


TIJOLO DE BOI

Engana-se quem pensa que transformar resíduos da pecuária em novos produtos é uma decisão meramente econômica. Em geral, as iniciativas são impulsionadas por questões ambientais. No caso do esterco, as pesquisas sobre o biogás surgiram para reduzir a emissão de metano no meio ambiente e problemas de proliferação de moscas e contaminação de cursos d’água, do solo e do ar.

Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, um problema ambiental gerado a partir do depósito de raspas de couro em aterros sanitários acabou culminando em novas descobertas para a construção civil e setor elétrico. As sobras de couro contêm alta dosagem de cromo —substância utilizada no processo de curtimento da pele bovina. Por não ser degradável, o cromo tornou-se um risco de contaminação do solo e do lençol freático nas regiões onde as raspas são depositadas. A substância é um metal pesado que pode causar alergias e até câncer, caso esteja presente em grandes quantidades no corpo humano.


"tijoloboi"
Fotos: L. Adolfo / ABCZ


Na pequena cidade paulista de Bocaina, cuja economia é movimentada pelos curtumes, as 100 indústrias da região geram entre 500 a 600 toneladas de raspas por mês. O resíduo surge quando a manta de couro é passada em uma lixadeira para que a peça fique uniforme e pronta para ser utilizada na confecção de acessórios e outros produtos. As sobras vão parar em aterros sanitários, como determina a legislação. Há alguns anos, o resíduo era armazenado em aterro local, mas, atualmente, por determinação da Cetesb (órgão responsável pela fiscalização ambiental no estado de São Paulo), ele é levado para Paulínea, município localizado a aproximadamente 270 quilômetros de Bocaina.

“Os curtumes da região tiveram que trabalhar em conjunto para transportar diariamente as raspas até Paulínea. Dividimos o frete e outras despesas. Cada tonelada sai em média por R$88,00”, explica Márcio Ferrari, proprietário da Quality Kouros. A empresa —fabricante de luvas, couro semi-acabado e proteções individuais — gasta até R$1.500,00 com o transporte dos resíduos. Para facilitar o envio das raspas, elas são prensadas em blocos de 1.500 quilos, cada. Um caminhão comporta até dez blocos, chamados de pallets.

Para Ferrari, o aproveitamento dos resíduos para a fabricação de outros produtos é a solução ideal para o problema. Reduzindo a quantidade de raspas nos aterros, é possível evitar a presença excessiva do cromo no solo. Em 2002, autoridades de Bocaina decidiram procurar ajuda no Departamento de Engenharia Civil da Unesp, localizado na vizinha Bauru (SP). “Os primeiros estudos mostraram que as raspas podem ser utilizadas na fabricação de tijolos. Usamos 20% de resíduo em relação à quantidade de massa do cimento. Os ensaios de caracterização física e mecânica dos tijolos mostraram resistência à compressão simples superior aos de barro cozido”, conta o engenheiro civil e professor da Unesp, Adilson Renófio.


Adilson Renófio: pesquisador da Unesp utiliza raspas de couro como matéria prima de placas de pisos

Apelidado de Tijoboi, o tijolo apresenta melhor desempenho térmico que o convencional. Essa característica permite uma temperatura mais agradável no interior da casa, independente se o clima lá fora estiver quente ou frio. O material não passa pela etapa de queima, como acontece na fabricação do tijolo comum. Outra vantagem é que não há risco do cromo contido na raspa contaminar o meio ambiente, pois ele fica encapsulado na resina usada na confecção do tijoboi.

A desvantagem apontada na época foi o custo final, cerca de 20% mais caro que o normal. “À medida em que a matéria-prima do tijolo comum tornar-se escassa, ou o cimento reduzir de preço, fato que hoje se verifica, a fabricação do tijolo de raspas de couro será mais viável”, anima-se Renófio. Outros estudos feitos pela equipe da Unesp apresentaram resultados animadores. Os resíduos foram usados na produção de placas para pisos (do tipo “Paviflex”), móveis e divisórias. O processo de produção é mais curto do que o de chapas de madeira. O próximo passo do estudo será definir o custo de produção em escala comercial. Apesar do apelo econômico e ambiental, tanto o tijolo quanto as placas ainda não entraram em escala industrial de produção devido à falta de equipamentos adequados.


BOI ENERGIA

No Sul do País, o lixo dos curtumes acumulado nos aterros sanitários pode ter outro destino futuramente. No laboratório de combustão da Fundação de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, as raspas de couro foram pesquisadas como fonte de energia devido ao seu poder calorífico, que a qualifica como combustível.

Assim como em São Paulo, o estudo na cidade gaúcha de Cachoeirinha surgiu com o intuito de solucionar o problema ambiental causado pela presença do cromo nos aterros. “Inúmeras tentativas foram feitas em todo o mundo para o aproveitamento do resíduo, tais como descurtimento para obtenção de proteínas e aminoácidos, aterros em áreas agrícolas, incineração. Mas as dificuldades encontradas não permitiram que fosse identificada uma solução definitiva. Agora, nossos curtumes e indústrias de calçados estão optando por armazenar os resíduos em galpões até que a nossa pesquisa seja concluída e possa ser liberada a combustão das raspas”, explica Leandro Dalla Zen, coordenador do Laboratório de Combustão da Cientec.

Para utilizar as raspas como combustível para geração de energia, é necessário que elas sejam queimadas com alta eficiência e que as emissões ambientais de cromo estejam dentro das restrições impostas pela legislação ambiental. De acordo com Dalla Zen, a pesquisa mostrou que a utilização do material é ambientalmente adequada caso possa ser utilizado conjuntamente com biomassa. Sob o ponto de vista ambiental, além de acabar com o problema do cromo nos aterros, a energia gerada a partir da combustão das raspas de couro ajuda na redução do consumo de lenha em curtumes.

Os resultados da pesquisa poderão ser aproveitados de duas formas, dependendo da finalidade a que se destina. O vapor gerado pode ser utilizado para aproveitamento como fonte de calor (utilizado em processos de aquecimento dentro do próprio curtume) ou para produção de energia elétrica (através de turbinas a vapor). Essa última necessita de mais estudos, pois um empreendimento desse tipo dependeria da análise de localização centralizada para recebimento de resíduos de um conjunto de curtumes.

“Estamos atualmente procurando verbas para que possamos realizar um estudo técnico-econômico para implantação de uma caldeira a leito fluidizado bi-combustível (lenha e resíduos de couro) em um curtume. Porém, já posso afirmar que essa tecnologia pode ser utilizada de imediato. O problema é que a pesquisa no Brasil é difícil”, lamenta Dalla Zen.

Por falta de recursos financeiros, as pesquisas da Unesp de Bauru também caminham a passos lentos. De acordo com Renófio, seriam necessários de R$200 a R$300 mil para o trabalho ser concluído, montante que custearia a compra de uma prensa quente e um picador industrial. Já o estudo de viabilidade técnico-econômica do projeto da Cientec está orçado em R$40 mil.

O caso das duas instituições, infelizmente, não é único no País, mas ilustra bem a realidade da pesquisa em terras tupiniquins. Os pesquisadores brasileiros sofrem constantemente com a paralisação dos estudos por falta de investimentos, que poderiam vir tanto da iniciativa privada quanto do setor público. A sociedade em geral é a maior prejudicada. “Os trabalhos não indicam apenas uma forma de agregar valor ao produto, mas, também, alternativas para gerar emprego, renda e contribuir para a qualidade de vida das gerações futuras”, constata o professor da Unesp de Bauru.


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